
O ‘Nexo’ publica um trecho de ‘Seremos dados’, de Marcus Bruzzo. No livro, o filósofo argumenta que, ao invés de criar, as inteligências artificiais apenas reorganizam o passado, dissolvendo o que existe de mais singular na criação humana: o dom de sonhar o impossívelO Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.
Das inumeráveis magias dos artífices técnicos da história humana, nenhuma havia chegado tão perto, até este momento, da simulação do espírito humano, a ponto de nos persuadir e de nos furtar a confiança e a adoração de tal forma. Diante de uma magnífica réplica da consciência, que assumimos como fruto do nosso próprio engenho, acabamos por nos curvar; há um sentimento ambíguo que mistura orgulho e temor, algo que Mary Shelley precocemente compreendeu. Já demonstramos, inúmeras vezes, que desenvolvemos profundo fascínio pelas nossas criações pelo simples fato de serem nossas criações, ainda que elas criem vítimas entre nós.
Nossas criações parecem servir ao propósito de revelar a nós mesmos, de canalizar a essência do que é, afinal, ser humano. Ora, caso nos perguntassem o que é a humanidade, ficaria mais bem-explicado se apontássemos o dedo para suas obras do que para um mero humano nu, delicado, ridiculamente fraco. O fascínio está nas obras porque conferimos a elas o poder de demonstrar o que realmente seríamos. E disso temos um animal que se fascina com as próprias criações. Parecem-nos surpreendentes, distanciam-se das capacidades de um único indivíduo de modo que, criadas em sociedade e pelas mãos de multidões, tais criações retornam aos olhos do indivíduo uno com um tom de superioridade e mística.
Admiramos nossas obras sempre com olhos apequenados frente ao engenho da nossa própria espécie. Não é difícil imaginar o impacto causado em cidadãos romanos ao vislumbrar a magnífica dimensão dos aquedutos ou de pessoas no medievo, minúsculas, pivotando o pescoço diante de colossais catedrais góticas. Não são obras de um ser humano! O ser humano não é capaz de fazer isso. Esses imensos monumentos ou as intricadas tecnologias emergem de uma multidão de mentes no eixo da história. Há algo entre mim, indivíduo limitado, e as grandes obras da humanidade, que nos separa, e os artifícios técnicos surpreendentes retêm seu tom de mistério.
A maestria e o mistério se confundem na mente humana atual. Razão pela qual, ainda que sejamos extremamente técnicos, isso por si só de forma alguma desmistifica o universo; a metafísica nunca esteve tão viva quanto hoje. A humanidade e suas tecnologias se entrelaçam profundamente em um relacionamento que não se explica apenas com conceitos de posse ou domínio somente. Há uma interdependência, algo bastante simples de se demonstrar; rendemos às tecnologias, aos meios técnicos e aos instrumentos a origem daquilo que temos por verdade. Desconfiamos, mesmo, de nossos instintos, do conhecimento orgânico, de qualquer intuição — cuja raiz, inclusive, significa “olhar para dentro”.
Mas, em um mundo tão amplamente revestido pela obra humana, em que nenhum espaço sequer do olhar mostre sua própria face humana, seus aparelhos, suas construções — e nem os céus e o espaço sideral escapam —, quem ousaria dizer que olhar o mundo não é o mesmo que olhar para dentro? Nossos olhos parecem não nos bastar. Precisamos de algo que olhe pelos nossos olhos.
Observamos os fenômenos do universo e investigamos seus mistérios por meio da técnica, do interior de nossos instrumentos como prolongamentos do corpo, o que nos habilita a estruturar uma ciência minimamente consistente pela falseabilidade. Contudo, essa nossa empreitada civilizacional tecnocientífica engendra uma explicação puramente lógica da real complexidade das coisas. Uma simplificação. Se devêssemos ouvir a Nietzsche, saberíamos que a lógica é uma das nossas mais engendradas ilusões; humanos criam sistemas lógicos em camadas sobrepostas, e a cada camada ficamos um passo mais distante da realidade em direção à suposta “verdade”. A verdade é apenas humana; é nosso porto seguro, um conforto tanto quanto pura ilusão.

Nunca, porém, deixamos de depender das ilusões, afinal. A verdade, entretanto, é das ilusões mais escorregadias; detém o privilégio raro no mundo secular de ser uma ilusão inquestionada. Passa incólume ao crivo da pós-modernidade. Entretanto, devemos nos atentar: certamente há algumas outras ilusões inquestionadas na história — um antropólogo médio nos interpelaria — e a essas chamaram de deuses! E deuses operam milagres por meio das mãos humanas. Tal qual as tecnologias. Encontramos o link.
A tecnologia ainda é, divinamente, “o algo que revela”, dizia Heidegger, a pragmata, a techné, que se confundia — na polissemia grega — com a episteme, ou “conhecimento”, e é nesse sentido que significa “algo que revela”. Tecnologia é um conhecimento cristalizado, feito quando a lógica se torna sistema. É dessa arte que a tecnologia recebeu tantas e tão variadas atribuições de revelação a partir dos mitos, como o de Prometeu. Quando nos revela o conhecimento, ele o faz com uma nova tecnologia, a centelha — literalmente — da técnica, e apenas por
meio dela a espécie dominou a natureza e a si própria. E as inteligências artificiais? Elas contêm no título que receberam a indicação de uma ambição; a realização da inteligência pós-humana, a superação da inteligência biológica que é considerada tão corruptível, tão dada às emoções. Sabemos que “inteligência artificial” se trata de um nome escolhido por marketing a fim de propagar a invenção por meio do interesse popular, e isso não é problema aqui; na verdade, é justamente tal interesse que nos é tão revelador. Havia uma demanda imaginativa, um sonho a ser realizado, já “pré-midiatizado” no imaginário popular, aguardando pela realização. O nosso futuro nasce primeiro na imaginação popular; depois sobra apenas a tarefa de realizá-lo.
Sonhamos, por muito tempo, em testemunhar a primeira vez em que a inteligência e a criatividade humanas se deparassem com outra inteligência ou criatividade não humana, disputando espaço com ela. A criatividade humana nunca havia sido disputada por outro agente, até este momento. O sonho de vislumbrar isso nos parece fruto de uma mistura, em que de um lado temos um desejo sádico de nos pôr à prova por comparação, e de outro, o ímpeto criativo de dominação da natureza em seu derradeiro estágio, a partir da duplicação da própria humanidade. Criamos um outro “nós”. Perpetuamos o gênio humano quando algo outro opera em nosso nome. Pela primeira vez nos parece viável eternizar aquilo que temos em maior estima acerca de nós mesmos, ainda que por meio de um mero simulacro. Mas o “nós” nas inteligências artificiais nos escapa. Está cada vez mais difusa a habilidade de reconhecer o que pertence a nós mesmos nessas tecnologias, quanto mais logicamente imbricadas elas se tornam.
O afastamento e, de certa forma, a autonomia desses agentes digitais em relação a nós, humanos, derivam da opacidade dos seus sistemas interiores, das diversas camadas lógicas que constituem a caixa-preta da sua atuação, para que, da ponta de quem interage, se apresentem como algo “espirituoso”. Determinar a ênfase da fala, ajustar o tom da voz que se deseja ouvir e até mesmo programar os humores da persona representada pela IA são formas de nivelar e estabelecer a profundidade de entrosamento esperada pelo ser humano com quem interage, e são todas, atualmente, features ofertadas na página de assinatura desses produtos.
A IA é um espelho da humanidade, como apontado pela pesquisadora Shannon Vallor, mas isso não significa que nos reconhecemos nas imagens que vemos. A humanidade, por milênios, tem se ajoelhado em louvor aos pés dos mitos que ela própria criou, como se ajoelha às respostas dadas pelas tecnologias às perguntas que ela mesma determinou. E Kierkegaard já alertava, em seu O desespero humano: doença até a morte, que “ninguém pode ver-se a si próprio num espelho sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém”.
As inteligências artificiais não são inteligentes, mas sim agentes, conforme alertava Luciano Floridi. Isso porque interagem com os seres humanos no espaço social, dão orientações, oferecem impulsos criativos e conselhos, viabilizam relacionamentos emocionais e ainda embasam tragédias humanas, conforme veremos. Nas próximas peças de tragédia da humanidade, deveremos considerar um agente de inteligência artificial entre as personagens, que provavelmente assumirá o papel de conselheiro. A IA não é uma mera ferramenta, porque seu envolvimento com a vida humana opera agora pela via dos sentidos, das palavras, das conversas, do entrosamento intelectual, dos sentimentos, das narrativas; envolve-se com a vida e a morte. E tudo isso não se deve a alguma circunstância extraordinária dessa tecnologia, precisamos salientar! Deve-se unicamente ao nosso impulso humano de animismo, de projetar almas nas coisas, de nos relacionar com o Outro enquanto olhamos para o espelho; de ver constelações no lugar das estrelas. A esse respeito, Cornelius Castoriadis lembrava que o ser humano consegue enxergar milhões de estrelas no céu noturno, mas que bastariam apenas poucas dezenas para que tivéssemos o mesmo panteão divino.

